quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A ÁRVORE DAS LÁGRIMAS



POR CARLOS SANTIAGO
Quatro crianças (de 11, 9, 7 e 5 anos) passavam, ao menos uma vez por semana, debaixo da Árvore das Lágrimas - assim mesmo, com maiúsculas. Eu era um dos quatro moleques que, pelas mãos do avô Pedro, brigava pra ver quem iria ´pilotar´ uma carriola de madeira, com rolemãs. Dentro da carriolinha iam quatro garrafões de vidro vazios. O objetivo oficial da turma era encher os galões com água de uma bica. Mas, aqui entre nós, e que não conste dos autos, chegar à bica é que era a grande aventura da turminha. Esta e outras histórias se passaram no bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde nasci.
A Árvore das Lágrimas, portanto, é uma das marcas mais fortes de minha infância, um verdadeiro símbolo de resistência. Aos sete anos, claro que eu não sabia que a Árvore era (é. Ela está lá, firme) uma figueira - e que a espécie é carregada de simbolismo, porque foi a árvore sob a qual Judas se enforcou. Num dia nublado, em que os primos não quiseram acompanhar o vô Pedro à excursão habitual, iniciei uma conversa. Moleque e perguntador, quis saber o que era aquela árvore que estava ali - e que tinha até placa e era cercada por uma mureta. Não sei se meu avô esperava pela pergunta.
Mas o querido Pedro Peres começou a explicar, daquele jeito que ele tinha de falar coisas importantes, para que você não se esqueçesse jamais de uma lição aprendida. Assim, fiquei sabendo que a Árvore das Lágrimas tinha aquele nome porque era até ali que as mulheres acompanhavam os maridos que iam para o combate na Guerra do Paraguai (1865 a 1870). Aquele era o Caminho do Mar. Hoje, é a Estrada das Lágrimas. Até aquele ponto, os viajantes eram acompanhados. A partir dali, estavam, cada qual, em "carreira solo" - e que Deus protegesse a todos.
A imagem de uma mulher se debulhando em lágrimas, debaixo de uma árvore, permaneceu inundando minha imaginação durante anos. Mesmo depois que mudei do Ipiranga, muito tempo após o próprio avô Pedro já ter partido para o desconhecido eu ainda, sempre que vou a Sampa visitar os primos (que continuam morando no querido Ipiranga), faço questão de prestar homenagem e passar pela Árvore das Lágrimas. Nem a favela de Heliópolis, que surgiu no entorno, quebra esse encanto. Ah: os garrafões sempre voltavam cheios de uma água deliciosa!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

BOSTA DE CAVALO E GÁS LACRIMOGÊNEO

POR CARLOS SANTIAGO
O Partido dos Trabalhadores passou a semana toda assoprando velinhas. Fundado em 1980, é, talvez, uma das poucas legendas nacionais a manter uma certa aura de ideologia... Talvez.
O PT tem, assim, 32 anos – mas quero voltar 33 anos atrás, para 1979 quando, aos meus 14 para 15 anos, morava em São Bernardo do Campo e estudava em um dos dois consagrados colégios estaduais da cidade: eu era aluno do João Ramalho – algo que, pelo que ouço de meus colegas jundiaienses, equivalia ao ‘GEVA’ ou ‘Instituto’, em termos de tradição.
Pois bem: o João Ramalho ficava (fica. Está lá, ainda; no mesmo endereço: rua José Bonifácio, 102) em uma rua tranqüila do Centro, travessa da Marechal Deodoro – esta sim uma ‘artéria’ movimentada e grande ponto comercial. Eu voltava do trabalho (era meu primeiro emprego, como office-boy em uma empresa química: a Toro, em Diadema) no ônibus da empresa, que despejava os funcionários bem perto da Igreja Matriz de SBC, por volta das 18 horas.
De vez em quando, era natural que alguém desse uns cochilos no ônibus e, claro, 'avançasse o sinal', perdesse o ponto e fosse parar mais pra frente. Eu lembro que vinha lendo “O Caso dos 10 Negrinhos” (o primeiro livro que li de Agatha Christie). Em algum ponto da avenida Piraporinha, devo ter fechado o livro, imaginando as agruras do juiz Wargrave (leiam. Ainda é ótimo!) e devo ter cochilado, lógico. Fui parar pontos adiante da Matriz e desci correndo.
Quando desci, ainda atordoado e meio dormindo, estava na calçada de uma loja que já não existe mais: era a Casas da Banha – uma espécie de hipermercado comparado ao que seria, hoje, o Carrefour. O problema era que, justamente naquela semana, diversas manifestações estavam ecoando e eclodindo por toda São Bernardo. Sei, hoje, que foi a primeira grande reunião de metalúrgicos, realizada no Estádio de Vila Euclides, a alguns quilômetros dali.
Os metalúrgicos começavam a se organizar, principiava um movimento que iria mudar não só a história do trabalhismo como da política nacional. Os trabalhadores deixaram o Estádio de Vila Euclides, capitaneados por um jovem Lula, e foram em marcha até o Centro de São Bernardo.
Justamente na hora em que eu descia do ônibus da Toro, na calçada em frente à Casas da Banha, um grupo de policiais militares a cavalo veio pra cima dos metalúrgicos que, com faixas e gritos de guerra, se entusiasmavam e tentavam fazer crescer o movimento em prol de melhores salários etc.
E aí foi a encrenca. Eu tinha descido bem no olho daquele furacão social e político. Eu e mais dezenas, centenas de pessoas, caminhávamos pelo Centro da cidade àquela hora. Lembro muito bem do cheiro da bosta dos cavalos, sinto ainda agora, enquanto escrevo, o mesmo terror de ver um dos animais quase em cima de mim, sindo o vento zunindo perto da minha cabeça, enquanto um cassetete era brandido por alguém atrás de um dos escudos empunhados pelos homens do 'Choque'. Tudo isso se passou em, sei lá, 5 ou 10 segundos, fui puxado por uma mão salvadora, pra dentro das Casas da Banha – ao mesmo tempo em que um funcionário da loja abaixava as portas rapidamente e a muvuca ficava lá fora.
Dentro da loja, no entanto, ainda havia muita gente com os olhos irritados – porque a fumaça do gás lacrimogêneo também vinha por baixo das portas e mesmo pelas vidraças, que eram baixas. Tive de esperar uma boa hora para conseguir sair dali e chegar ao meu destino: o João Ramalho.
Mal assisti a aula (naquela noite era Química, com um professor de nome Ernâni, um homem alto, vozeirão, que sabia explicar como poucos os segredos da tabela periódica e de quem, ainda hoje, me lembro com carinho, em seu avental branco e óculos quadrados).
Tentei explicar ao professor Ernâni o que tinha acontecido, ele viu que era sério, me mandou ir pra casa. Meu pai (o velho e querido Milton) tinha, então, 42 anos. Me dizia sempre "cuidado com o que você fala, veja com quem conversa", ainda mantinha os dois pés atrás com a Ditadura, tinha nojo de ver o General Figueiredo na televisão (nosso presidente que ficou famoso por preferir cavalos a trabalhadores, entre outras idiossincrasias).
Como pai esclarecido que era, Milton tinha medo de ver os filhos "desaparecerem". É algo que eu não entendia muito bem, afinal já estávamos no final da 'Revolução Redentora', para mim a fase brava havia ficado lá atrás, no começo dos anos 70 - em coisas que eu só iria começar a entender muitos anos depois, nos livros de Élio Gaspari e sua turma.
Mas, voltando ao gás lacrimôgeneo e à fuga na Casas da Banha: esquerdista e trabalhador , claro que Milton Santiago ia se entusiasmando com o movimento dos trabalhadores, ia se ‘enlulando’ cada vez mais. Votou em Lula a vida inteira. Eu jamais contei a ele aquele episódio.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

TRÊS VEZES PABLO NERUDA



POR RAQUEL LOBODA BIONDI
Este blog possui o feliz atrevimento de perfilar pessoas e coisas, às diversas maneiras, por duplos olhares. Pensando nele, em férias, ousei incluir na lista dos “objetos perfilados” um outro e tão importante alvo de percepções: a casa.
Viajar é preciso. E fazer parte também. Um lugar é uma morada, nem que seja a estrada, nem que seja o mar. Em alguns dias passados no Chile – onde o calor abria portas e janelas e o tempo seco chamava para os sucos da tarde – o sentimento de habitar me parecia maior. Saltava, em uma cidade de fácil dinâmica (Santiago), pelas ruas, esquinas e linhas do metrô, o desejo de circular entre quem construía ali, a sua habitação. A cidade tem esta importância e ganha ainda outras dimensões, quase sem fronteiras, para o poeta chileno Pablo Neruda (1904 – 1973). As casas de Neruda são pontos extremamente turísticos que reservam visitas guiadas e filas de espera na alta temporada, porém, ainda que este tenha sido um direcionamento natural da fundação que preserva e leva o seu nome, a intenção do poeta adorador do mar, dos barcos e trens era fazer de cada cômodo de suas três moradas no Chile (em Santiago, em Valparaíso e uma última na beira da praia de Isla Negra) apenas uma extensão de seus amores. Para cada peça, canto e mobília das casas, há um conto de poeta – algo que poderia explicar suas excentricidades ou paixões. Além do mar e da sensação de estar sempre dentro de um barco, coleções preenchem as suas casas – de conchas, garrafas, cachimbos ou esqueletos de borboletas. Em Isla Negra, na casa de pedra que guarda o corpo do poeta na costa, a sala de jantar envolve duas estátuas (grandes) uma à frente da outra. Neruda dizia que sua intenção era que ambas se apaixonassem, no entanto, o romance não vingou porque uma delas – a mulher – só tinha olhos para o mar. A história é concreta. Ao entrar neste cômodo, não há como não notar a estátua curvada à janela da sala que dá vista para o Pacífico. A janela grande é característica de todas as três casas; cada vidro abriga uma vista particular: em Santiago, no bairro Bella Vista, Neruda tinha toda a cordilheira dos Andes; em Valparaíso, possuía a vista de toda a cidade, repleta de pequenas casas coloridas, e em Isla Negra, o nascer e o pôr do Sol no oceano eram seus.
A casa como uma parceira. Na construção de Santiago, Neruda também deixou confidências. No local, aconteciam os encontros com Matilde Urrutia (1912-1985), sua última mulher e, talvez, a mais dedicada. Quando a conheceu, o poeta já era comprometido e então fez de “La Chascona” (nome da casa na capital chilena), a sede do amor proibido. Anos depois, Neruda e Matilde se casariam e a presença desta mulher se faria ainda maior nos inúmeros cantos de suas moradas.  Em cada casa, há um rastro seu. Fotos, livros e retratos. “La Chascona”, expressão exclusiva chilena, representa aquela de cabelos revoltos, bagunçados e, para Neruda, acima de tudo, sedutores. Sobre os fios, o poeta escreveu sonetos e seu amigo mexicano Diego Rivera debruçou cores – o quadro revela nos traços da cabeleira de Matilde, o perfil de Neruda e está exposto, originalmente,  em uma das paredes da Chascona.  
Ao falar das casas de um poeta é como se todas as outras fossem representadas. Cada casa uma pessoa, cada pessoa uma casa. É esta a sensação que se tem em “La Sebastiana”, em Valparaíso, de onde se vê, do alto, um horizonte de outras pequenas e coloridas casas. Pelas ladeiras abaixo, não há percepção que se acabe – as linhas e fachadas das construções fluem como um barco de Neruda que deságua no mar ou como os passos de quem tem ali, o seu cotidiano e a sua cidade.