POR RAQUEL LOBODA BIONDI
A rua abrange reações curiosas. Uma vez, em Santiago (Chile), comprei flores para um casal de amigos. Queria dar vida ao primeiro vaso que tiveram juntos. Um objeto novo, no meio da sala, de plástico e em desuso. Naquele dia, andei quase toda uma cidade com as flores nas mãos. Escolhi um tipo aparentemente mais resistente ao calor, recomendado pelo florista que me roubou uns trocados no preço da planta e riu do meu espanhol 'confuso'. No percurso de uma tarde, as flores seguiram comigo até ao museu, aos parques, às lojas, à multidão. E todos me olhavam, sem exceção. Ganhava um sorriso de canto ou um olhar admirado. "Novio? Novio?" - perguntavam, como se eu tivesse recebido as flores de um namorado. Hoje, não mais em Santiago, em um segundo momento com flores nas mãos (ganhei um vaso no trabalho), fiz o mesmo trajeto de todos os dias, a pé, de volta para casa, e recebi aquele mesmo sorriso sem jeito, aquela cara de espanto, como se a chuva fina, o frio e a calçada esburacada nem importassem às ruas ou a ninguém. Como se estas ruas, daqui ou de lá, fossem as mesmas e as flores, um acaso que nos lava o dia.
MIMEOGRAFADAS
Pessoas que fizeram - e fazem - a nossa cabeça
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
UMA CASA PARA CHAMAR DE ALDEIA
POR RAQUEL LOBODA BIONDI
Se um dia você for a Coxim, procure por uma casa com um rio no quintal. É chamada de 'aldeia' porque mais que uma casa, o terreno vasto, de terra batida e transformado pelo tempo, é mesmo a morada de várias famílias. Não conheci todas elas, mas o centro do relacionamento entre aqueles 'conjugados' era feito por um único homem e deste sim, eu estive perto. Coxim é uma pequena cidade do Mato Grosso do Sul. Também ao sul é que ela fica em toda a imensidão do Pantanal. Para se chegar ao meião desta riqueza (do Pantanal) - como eles dizem por lá - é preciso descer e descer rios. Os jacarés já se escondem das baías, um pouco pela época de seca em que procurei por eles (em julho de 2009) e também pela caça que fazem a estes animais. As baías são como 'prainhas' à beira dos rios, onde os mesmos jacarés, que fogem, costumam tomar sol. Descendo de barco, também para pescar, Seu Aristeu, - o homem da aldeia - um senhor com mais de 60 anos, amante dos pés descalços, da madrugada para acordar, do café doce e das plantações de sua roça, indica as belezas daquele fluxo de água que parece não acabar. É ele quem ajuda a encontrar jacarés para mostrar às "jovens da cidade grande", pouco entendidas da fauna local, uma espécie corriqueira daquela diversidade. No meio da busca, são vistos os tuiuius, típicos da região. Nos aproximamos deles com câmeras nas mãos. O contato foi único, eu me lembro assim.
Seu Aristeu era como o dono daquele momento; contava sobre a vida e nos conduzia no barco, abrindo rios, como as portas de sua casa. Na 'aldeia', onde mora, ele carpia o mato mesmo seco e colhia tipos de planta, cujos nomes só ele sabia. Seu Aristeu é de inventar palavras. E este é o maior de seus charmes. Ali, ele é o homem querido por todos - filhos, netos e bisnetos. Mas preza por seus momentos sozinhos - quando escuta, às seis da manhã, a sua oração do dia pelo rádio AM ou vai dormir antes de todos, junto com os galos e galinhas de seu terreno que sobem em árvores, à noite, para curtir o sono.
Naquela época, a sua disposição era enorme e a generosidade também. "Eu tenho um rio no quintal", ele dizia mostrando, de fato, o trecho raso de um rio que passa na área dos fundos da aldeia e de sua casa. Sobre o rio, andamos de canoa, da qual, Seu Aristeu tirou, com toda a calma e dedicação, a água acumulada para sentarmos. Pelo depoimento dos filhos, netos e amigos, o homem da 'aldeia' se tornou o personagem real e central de um documentário - TCC de Jornalismo da PUC-SP - realizado por duas amigas, da faculdade e da vida. No convívio com o senhor simpático, conseguimos contar, por ele mesmo, histórias de um cotidiano, sem datas ou idade, origem ou projeções futuras. Era o Seu Aristeu dali, de Coxim, daquele momento. Pescador até hoje, Seu Aristeu já fez um pouco de tudo e sente pelas queimadas que minaram boa parte da sua área de colheita. "Agora, fica difícil, não tem mais nada." Em outros tempos, também não precisaríamos ir tão longe para encontrar jacarés - eles ficavam ali, no quintal de Seu Aristeu. No fim de longa descida pelo rio, encontramos os jacarés, de longe. Ariscos, entraram logo na água, deixando o sol para depois.
O contato com Seu Aristeu, como se fosse com um vizinho (ficamos hospedadas ao lado da aldeia), foi um ganho de vida. Ao fim de um trabalho delicado, só podíamos dar um nome ao documentário (sugerido por outra amiga querida que tanto nos ajudou na edição): "Um rio no quintal". Seu Aristeu e seus rios, com suas paisagens únicas da janela e o jeito calmo de seguir a vida se consolidam no seu próprio discurso.quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
A ÁRVORE DAS LÁGRIMAS
POR CARLOS SANTIAGO
Quatro crianças (de 11, 9, 7 e 5 anos) passavam, ao menos
uma vez por semana, debaixo da Árvore das Lágrimas - assim mesmo, com
maiúsculas. Eu era um dos quatro moleques que, pelas mãos do avô Pedro, brigava
pra ver quem iria ´pilotar´ uma carriola de madeira, com rolemãs. Dentro da
carriolinha iam quatro garrafões de vidro vazios. O objetivo oficial da turma
era encher os galões com água de uma bica. Mas, aqui entre nós, e que não
conste dos autos, chegar à bica é que era a grande aventura da turminha. Esta e
outras histórias se passaram no bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde nasci.
A Árvore das Lágrimas, portanto, é uma das marcas mais
fortes de minha infância, um verdadeiro símbolo de resistência. Aos sete anos,
claro que eu não sabia que a Árvore era (é. Ela está lá, firme) uma figueira -
e que a espécie é carregada de simbolismo, porque foi a árvore sob a qual Judas
se enforcou. Num dia nublado, em que os primos não quiseram acompanhar o vô
Pedro à excursão habitual, iniciei uma conversa. Moleque e perguntador, quis
saber o que era aquela árvore que estava ali - e que tinha até placa e era
cercada por uma mureta. Não sei se meu avô esperava pela pergunta.
Mas o querido Pedro Peres começou a explicar, daquele jeito
que ele tinha de falar coisas importantes, para que você não se esqueçesse
jamais de uma lição aprendida. Assim, fiquei sabendo que a Árvore das Lágrimas
tinha aquele nome porque era até ali que as mulheres acompanhavam os maridos
que iam para o combate na Guerra do Paraguai (1865 a 1870). Aquele era o
Caminho do Mar. Hoje, é a Estrada das Lágrimas. Até aquele ponto, os viajantes
eram acompanhados. A partir dali, estavam, cada qual, em "carreira
solo" - e que Deus protegesse a todos.
A imagem de uma mulher se debulhando em lágrimas, debaixo de
uma árvore, permaneceu inundando minha imaginação durante anos. Mesmo depois
que mudei do Ipiranga, muito tempo após o próprio avô Pedro já ter partido para
o desconhecido eu ainda, sempre que vou a Sampa visitar os primos (que
continuam morando no querido Ipiranga), faço questão de prestar homenagem e
passar pela Árvore das Lágrimas. Nem a favela de Heliópolis, que surgiu no
entorno, quebra esse encanto. Ah: os garrafões sempre voltavam cheios de uma
água deliciosa!
sábado, 11 de fevereiro de 2012
BOSTA DE CAVALO E GÁS LACRIMOGÊNEO
POR CARLOS SANTIAGO
O Partido dos Trabalhadores passou a semana toda assoprando
velinhas. Fundado em 1980, é, talvez, uma das poucas legendas nacionais a
manter uma certa aura de ideologia... Talvez.O PT tem, assim, 32 anos – mas quero voltar 33 anos atrás, para 1979 quando, aos meus 14 para 15 anos, morava
Pois bem: o João Ramalho ficava (fica. Está lá, ainda; no mesmo endereço: rua José Bonifácio, 102) em uma rua tranqüila do Centro, travessa da Marechal Deodoro – esta sim uma ‘artéria’ movimentada e grande ponto comercial. Eu voltava do trabalho (era meu primeiro emprego, como office-boy em uma empresa química: a Toro, em Diadema) no ônibus da empresa, que despejava os funcionários bem perto da Igreja Matriz de SBC, por volta das 18 horas.
De vez em quando, era natural que alguém desse uns cochilos no ônibus e, claro, 'avançasse o sinal', perdesse o ponto e fosse parar mais pra frente. Eu lembro que vinha lendo “O Caso dos 10 Negrinhos” (o primeiro livro que li de Agatha Christie). Em algum ponto da avenida Piraporinha, devo ter fechado o livro, imaginando as agruras do juiz Wargrave (leiam. Ainda é ótimo!) e devo ter cochilado, lógico. Fui parar pontos adiante da Matriz e desci correndo.
Quando desci, ainda atordoado e meio dormindo, estava na calçada de uma loja que já não existe mais: era a Casas da Banha – uma espécie de hipermercado comparado ao que seria, hoje, o Carrefour. O problema era que, justamente naquela semana, diversas manifestações estavam ecoando e eclodindo por toda São Bernardo. Sei, hoje, que foi a primeira grande reunião de metalúrgicos, realizada no Estádio de Vila Euclides, a alguns quilômetros dali.
Os metalúrgicos começavam a se organizar, principiava um movimento que iria mudar não só a história do trabalhismo como da política nacional. Os trabalhadores deixaram o Estádio de Vila Euclides, capitaneados por um jovem Lula, e foram em marcha até o Centro de São Bernardo.
Justamente na hora em que eu descia do ônibus da Toro, na calçada em frente à Casas da Banha, um grupo de policiais militares a cavalo veio pra cima dos metalúrgicos que, com faixas e gritos de guerra, se entusiasmavam e tentavam fazer crescer o movimento em prol de melhores salários etc.
E aí foi a encrenca. Eu tinha descido bem no olho daquele furacão social e político. Eu e mais dezenas, centenas de pessoas, caminhávamos pelo Centro da cidade àquela hora. Lembro muito bem do cheiro da bosta dos cavalos, sinto ainda agora, enquanto escrevo, o mesmo terror de ver um dos animais quase em cima de mim, sindo o vento zunindo perto da minha cabeça, enquanto um cassetete era brandido por alguém atrás de um dos escudos empunhados pelos homens do 'Choque'. Tudo isso se passou em, sei lá, 5 ou 10 segundos, fui puxado por uma mão salvadora, pra dentro das Casas da Banha – ao mesmo tempo em que um funcionário da loja abaixava as portas rapidamente e a muvuca ficava lá fora.
Dentro da loja, no entanto, ainda havia muita gente com os olhos irritados – porque a fumaça do gás lacrimogêneo também vinha por baixo das portas e mesmo pelas vidraças, que eram baixas. Tive de esperar uma boa hora para conseguir sair dali e chegar ao meu destino: o João Ramalho.
Mal assisti a aula (naquela noite era Química, com um professor de nome Ernâni, um homem alto, vozeirão, que sabia explicar como poucos os segredos da tabela periódica e de quem, ainda hoje, me lembro com carinho, em seu avental branco e óculos quadrados).
Tentei explicar ao professor Ernâni o que tinha acontecido, ele viu que era sério, me mandou ir pra casa. Meu pai (o velho e querido Milton) tinha, então, 42 anos. Me dizia sempre "cuidado com o que você fala, veja com quem conversa", ainda mantinha os dois pés atrás com a Ditadura, tinha nojo de ver o General Figueiredo na televisão (nosso presidente que ficou famoso por preferir cavalos a trabalhadores, entre outras idiossincrasias).
Como pai esclarecido que era, Milton tinha medo de ver os filhos "desaparecerem". É algo que eu não entendia muito bem, afinal já estávamos no final da 'Revolução Redentora', para mim a fase brava havia ficado lá atrás, no começo dos anos 70 - em coisas que eu só iria começar a entender muitos anos depois, nos livros de Élio Gaspari e sua turma.
Mas, voltando ao gás lacrimôgeneo e à fuga na Casas da Banha: esquerdista e trabalhador , claro que Milton Santiago ia se entusiasmando com o movimento dos trabalhadores, ia se ‘enlulando’ cada vez mais. Votou em Lula a vida inteira. Eu jamais contei a ele aquele episódio.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
TRÊS VEZES PABLO NERUDA
POR RAQUEL LOBODA BIONDI
Este blog possui o feliz atrevimento de perfilar pessoas e
coisas, às diversas maneiras, por duplos olhares. Pensando nele, em férias,
ousei incluir na lista dos “objetos perfilados” um outro e tão importante alvo
de percepções: a casa.
Viajar é preciso. E fazer parte também. Um lugar é uma
morada, nem que seja a estrada, nem que seja o mar. Em alguns dias passados no
Chile – onde o calor abria portas e janelas e o tempo seco chamava para os
sucos da tarde – o sentimento de habitar me parecia maior. Saltava, em uma
cidade de fácil dinâmica (Santiago), pelas ruas, esquinas e linhas do metrô, o
desejo de circular entre quem construía ali, a sua habitação. A cidade tem esta
importância e ganha ainda outras dimensões, quase sem fronteiras, para o poeta
chileno Pablo Neruda (1904 – 1973). As casas de Neruda são pontos extremamente
turísticos que reservam visitas guiadas e filas de espera na alta temporada,
porém, ainda que este tenha sido um direcionamento natural da fundação que preserva
e leva o seu nome, a intenção do poeta adorador do mar, dos barcos e trens era
fazer de cada cômodo de suas três moradas no Chile (em Santiago, em Valparaíso
e uma última na beira da praia de Isla Negra) apenas uma extensão de seus
amores. Para cada peça, canto e mobília das casas, há um conto de poeta – algo
que poderia explicar suas excentricidades ou paixões. Além do mar e da sensação
de estar sempre dentro de um barco, coleções preenchem as suas casas – de
conchas, garrafas, cachimbos ou esqueletos de borboletas. Em Isla Negra, na casa
de pedra que guarda o corpo do poeta na costa, a sala de jantar envolve duas
estátuas (grandes) uma à frente da outra. Neruda dizia que sua intenção era que
ambas se apaixonassem, no entanto, o romance não vingou porque uma delas – a
mulher – só tinha olhos para o mar. A história é concreta. Ao entrar neste
cômodo, não há como não notar a estátua curvada à janela da sala que dá vista
para o Pacífico. A janela grande é característica de todas as três casas; cada
vidro abriga uma vista particular: em Santiago, no bairro Bella Vista, Neruda
tinha toda a cordilheira dos Andes; em Valparaíso, possuía a vista de toda a
cidade, repleta de pequenas casas coloridas, e em Isla Negra, o nascer e o pôr do Sol
no oceano eram seus.
A casa como uma parceira. Na construção de Santiago, Neruda
também deixou confidências. No local, aconteciam os encontros com Matilde
Urrutia (1912-1985), sua última mulher e, talvez, a mais dedicada. Quando a
conheceu, o poeta já era comprometido e então fez de “La Chascona” (nome da casa na
capital chilena), a sede do amor proibido. Anos depois, Neruda e Matilde se
casariam e a presença desta mulher se faria ainda maior nos inúmeros cantos de
suas moradas. Em cada casa, há um rastro
seu. Fotos, livros e retratos. “La Chascona”, expressão exclusiva chilena, representa
aquela de cabelos revoltos, bagunçados e, para Neruda, acima de tudo, sedutores.
Sobre os fios, o poeta escreveu sonetos
e seu amigo mexicano Diego Rivera debruçou cores – o quadro revela nos traços
da cabeleira de Matilde, o perfil de Neruda e está exposto, originalmente, em uma das paredes da Chascona.
Ao falar das casas de um poeta é como se todas as outras
fossem representadas. Cada casa uma pessoa, cada pessoa uma casa. É esta a
sensação que se tem em “La Sebastiana”, em Valparaíso, de onde se vê, do alto, um
horizonte de outras pequenas e coloridas casas. Pelas ladeiras abaixo, não há
percepção que se acabe – as linhas e fachadas das construções fluem como um
barco de Neruda que deságua no mar ou como os passos de quem tem ali, o seu
cotidiano e a sua cidade.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
CRONIQUINHA PARA DÉBORAH
POR CARLOS SANTIAGO
Era uma vez uma casinha simples. Mas não tão simples assim que pudesse ser comparada, por exemplo, com as casas da história dos três porquinhos. Afinal, não havia ventania nem sopro de lobo mau que derrubasse suas paredes. Era pequena, sim – com dois quartos de uns 12 metros quadrados cada, sala, cozinha, copa e um banheiro. A caiação estava lá, em cada pilar e também nas paredes.Uma varanda fora construída do lado oeste, de frente para um gramado, para o buraco onde seria a piscina, para as traves em que jogávamos futebol e para as árvores que plantamos – e meio de lado para a imensidão formada pelas espécies que formam a Serra do Japi – que era nossa ‘vizinha’.
Entre as árvores que plantamos havia um pau-brasil – que minha cunhada Waléria fez questão de trazer sabe-se lá de onde – e que foi brotando, crescendo e ficando adulta.
Depois de muito tempo sem uso, uma reforminha era necessária para receber os ‘novos’ moradores. Fizemos planos para nos adaptar ao orçamento – e, por isso, ficou faltando pelo menos uma coisa: o forro de madeira para o teto.
No começo, assim que nos mudamos para essa casa, lá no Vale dos Cebrantes (fica bem próximo ao bairro Medeiros, em Jundiaí), o que chamava a atenção das visitas é que não havia laje e o telhado combinava na simplicidade com o lugar – porque eram telhas do tipo eternit, das mais finas que se tem notícia.
Como havíamos gasto (eu e a Déborah, minha mulher) um dinheiro a mais do que o previsto na reforma, resolvemos que a forração dos cômodos seria feita na medida do possível. Claro que os dias foram se passando e os meses se avolumando – e nada de nos planejarmos para comprar o forro.
É que, na simplicidade do ambiente, resolvemos que gostávamos da casa do jeito que era. Eu voltava do trabalho, às vezes, a tempo de ver o vento mudando de rumo – passando a soprar de nordeste, lá da Serra, com força, meio que lambendo a ponta das telhas da varanda e fazendo sacudir com força as roupas colocadas no varal. Nesse momento, o sol (era janeiro de 1997, finzinho do horário de verão) ainda estaria pousando lá do outro lado dos eucaliptos, bem ao pé da rodovia Dom Gabriel, dando um tom avermelhado ao céu.
Depois do jantar, o trio de moradores (tínhamos o Henrique, então com seus 10 anos; o Pedro nasceria um ano depois) gostava de ficar se alternando nas redes e na cadeira de preguiça que fora de meu avô ou, quase na hora de dormir, de fica robservando as teias que as aranhas iam produzindo, ao mesmo tempo em que fazíamos carinho na barriga dos gatos Batman e Verônio ou da cadela Margarida (uma mestiça de vira-lata com pastor, que tinha olhar inteligente e nos acompanhava para todo lugar, apesar de, oficialmente, pertencer a uma casa vizinha).
Uns 20 dias depois de nos mudar para a casinha do Vale dos Cebrantes, nos demos conta que a lua cheia havia aparecido pela primeira vez naquele céu estrelado. Mas a surpresa viria, mesmo, na hora de dormir. Do jeito com que a cama ficou disposta no quarto, tínhamos três furinhos das telhas bem acima das nossas cabeças. E por esses furinhos entrava a luz da lua cheia. O mais incrível é que a luz também trazia um efeito de prisma ótico – e o luar que entrava pelos furos do telhado captava todo o cenário da natureza lá de fora. Como se fora um projetor, a luz do luar trazia, refletida nas paredes do quarto, todos os contornos dos pinheiros que ficavam atrás da casa. Era como se estivéssemos dormindo em meio às árvores, mas protegidos pelas paredes. Os pinheiros estavam ‘dentro’ do quarto, cada sombra de árvore se alongando pelos tijolos das paredes e mostrando cada contorno de cada galho, de cada castanha e de cada casquinha da árvore. Estava tudo ali – nitidamente desenhado nas paredes.
O mesmo fenômeno se repetia quando o dia amanhecia, pois a luz do sol vinha também por trás da casa e projetava toda a maravilha da natureza para o interior do nosso mundinho.
Como fomos recebendo cada vez mais amigos que passavam o final de semana conosco (e muitos não tinham essa ‘disposição para o rústico’ – nem gostavam de observar as aranhas tecendo suas teias) tratamos de comprar madeira nos meses seguintes e pregar, nós mesmos, o forro da sala, do quarto do Henrique e da cozinha.
Mas os pinheiros, eucaliptos e tramas de trepadeiras continuaram ‘nos fazendo companhia’ pelos anos seguintes em que moramos lá. Nunca pusemos o forro no nosso quarto.
sábado, 21 de janeiro de 2012
A MÍDIA E O FURACÃO ELIS
POR CARLOS SANTIAGO
Da primeira postagem, a gente nunca esquece. Eu estava, anteontem (19/1) vendo em praticamente todas as emissoras de TV, e lendo nos jornais, sobre os 30 anos da morte do Furacão Elis. E também minha memória voltou a 1982. Eu era office-boy em São Paulo, trabalhava em uma indústria gráfica e estava, bem naquela manhã, visitando um cliente da gráfica (a Companhia Telefônica, mas não esta que está aí, hoje, espanhola - e sim a antiga Telefônica). Pois bem, eu visitava a Telefônica na rua Martiniano de Carvalho, no Paraíso, fui levar umas provas gráficas ao Ary.A Telefônica ficava num prédio, acho, de uns 20 andares, nós estávamos no oitavo ou nono, era possível ver dali a avenida 23 de Maio.
Atendi o Ary logo, peguei de volta o trabalho, pus na pasta 007 que todo office-boy tinha e fui, quase correndo, em direção ao Teatro Brigadeiro. O corpo de Elis estava sendo velado ali.
Cheguei em meio a uma grande muvuca, no momento em que o caixão era colocado sobre um carro do Corpo de Bombeiros. Lembro de ouvir a 'narração' do que se passava na voz do José Nello Marques, que estava, então, na Rádio Jovem Pan, e falava ao vivo da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, 1411 - um dos endereços mais tradicionais da cultura paulistana, ao longo de décadas. E até hoje não esqueço do poder da mídia - e ainda não entendi o que aconteceu. O Nello transmitia ao vivo, como já disse, a viatura da Pan estava ao lado, o som da emissora ecoava por um alto-falante.
O jornalista disse, então, algo como: "Agora, as pessoas presentes aplaudem, no momento em que o caixão é colocado no caminhão dos Bombeiros". E foi só aí, posso garantir, foi só aí, quando ouviram a narração pelos alto-falantes, que o povão entendeu que devia aplaudir.
José Nello Marques me mostrava, daquela forma, o poder da mídia. Foi uma das maiores lições de jornalismo que tive - muito maior que aquelas em sala de aula.
Segui, como milhares de pessoas, o cortejo, pelas avenidas 23 de Maio e Rubem Berta. Continuo, claro, ouvindo Elis - no carro, em meu mídia player, em casa...
A morte da Pimentinha foi só o começo do despertar da minha carreira de jornalista.
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